The Pageant of World History vs. Wikipédia: O caso de Mussolini

Bryan Caplan

Quando eu estava na sexta série uma cópia de 1967 do livro The Pageant of World History de Gerald Leinwand chegou às minhas mãos. Ainda que tenha aprendido muito com ele, o livro contém omissões estarrecedoras. Eis aqui o que Leinwand diz sobre os primeiros anos de Mussolini:

Mussolini, a uma certa altura, fora socialista e, sendo um jornalista, escreveu artigos favoráveis a derrubada do capitalismo.

Tudo verdadeiro, mas bastante enganador! Leinwand dá a entender que Mussolini era um simplório jornalista e um reles membro do partido socialista. Fiquei sem conhecer a verdadeira estória por décadas até que descobri as obras de A. James Gregor, especialmente o seu livro Young Mussolini and the Intellectual Origins of Fascism. Felizmente, para os alunos da sexta-série dos dias hoje, a Wikipédia traz os fatos omitidos por Leinwand. Mussolini não era um socialista qualquer; ele era o Lenin da Itália — o líder da facção revolucionária radical. E Mussolini não era um mero “jornalista”; ele era o editor do Avanti!, o jornal oficial do Partido Socialista. Por volta de 1910, ele…

…era considerado um dos mais proeminentes socialistas da Itália. Em setembro de 1911, Mussolini participou de um motim, liderado pelos socialistas, contra a guerra italiana na Líbia. Ele denunciava, com amargor, a “guerra imperialista” da Itália para capturar a cidade de Tripoli, capital da Líbia, uma ação que lhe custou cinco meses de prisão. Após sua soltura, ajudou a expulsar das fileiras do partido socialista dois “revisionistas” que tinham apoiado a guerra, Ivanoe Bonomi e Leonida Bissolati. Como resultado, foi premiado com a editoria do jornal Avanti! do partido socialista. Sob o seu comando, a circulação do jornal logo passou de 20.000 para 100.000 exemplares.

O artigo da Wikipédia (anglófona) sobre o Italian Socialist Party (Partido Socialista Italiano) tem mais detalhes sobre o expurgo dos “revisionistas” promovido por Mussolini:

No princípio do século 20, contudo, o PSI optou por não se opor vigorosamente ao governo liderado pelo cinco-vezes Primeiro Ministro Giovanni Giolitti. Esta conciliação com o governo existente e o seu ganho eleitoral contribuíram para tornar o PSI um partido político italiano do mainstream, na década de 1910.

A despeito das melhorias nos resultados eleitorais do partido, o PSI permaneceu, mesmo assim, um partido dividido em duas correntes principais: os Reformistas e os Maximalistas. Os Reformistas, liderados por Filippo Turati, eram mais fortes principalmente nos sindicatos e nos círculos parlamentares. Os Maximalistas, liderados por Costantino Lazzari, eram afiliados ao Bureau de Londres, uma associação internacional de partidos socialistas.

Em 1912, os Maximalistas liderados por Benito Mussolini prevaleceram na convenção do partido, o que levou a cisão do partido e a formação do Partido Socialista Reformador Italiano.

Para os socialistas, é claro, a apostasia de Mussolini não prova nada, exceto a sua suprema vilania. Para todos os outros, contudo, a história das origens de Mussolini coloca toda a sua carreira ulterior sob uma nova luz. Quem vê as coisas de fora observa facilmente o que os de dentro negam: a fruta apóstata raramente cai longe da árvore ortodoxa.

Sim, Mussolini percebeu que o socialismo e o nacionalismo combinados tinham mais apelo às massas do que o socialismo isoladamente. Sim, Mussolini percebeu que o socialismo seria mais forte se o aliasse com a Igreja ao invés de destruí-la. Sim, Mussolini percebeu que a completa e massiva expropriação da propriedade privada destruiria a economia. E sim, Mussolini percebeu que a palavra “socialismo” alienaria milhões de italianos que, de outra forma, se mostrariam receptivos à sua mensagem. Mas isto não faz de Mussolini um socialista radical que traiu tudo aquilo em que acreditava, mas sim um socialista radical que se livrou de alguns dogmas socialistas periféricos que o separavam do poder absoluto. Se tivesse mantido a etiqueta socialista e evitado a aliança com Hitler, talvez Mussolini fosse hoje um ícone da esquerda tão grande como Che Guevara.

Original em inglês disponível no endereço: http://econlog.econlib.org/archives/2012/06/the_whitewash_o.html

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