Antony C. Sutton, Wall Street, Nazismo & Comunismo

Antony C. Sutton é entrevistado e fala sobre Adolf Hitler, o movimento bolchevique, quem financiou o comunismo, transferência de fundos, transferência de tecnologias, Henry Ford, David Rockfeller, IG Farben, Standard Oil, a Comissão Trilateral, quem controla a mídia nos EUA, corporações, banqueiros internacionais, quem é o governo invisível e muito mais.

Fascismo

Sheldon Richman

Enquanto sistema econômico, o fascismo é socialismo com um verniz capitalista. A palavra deriva de fasces, o símbolo romano do coletivismo e do poder: um feixe de varas amarradas junto a um machado sobressalente. Nos seus dias (as décadas de 1920 e 1930), o fascismo era visto como um meio-termo entre o capitalismo liberal propenso a altos-e-baixos, com o seu alegado conflito de classes, a sua competição degradante, e o seu egoísmo voltado ao lucro, e o marxismo revolucionário, com a sua perseguição violenta, e socialmente desagregadora, a burguesia. O fascismo substituiu a peculiaridade “sangue e solo” do nacionalismo e do radicalismo pelo internacionalismo comum ao liberalismo clássico e ao marxismo.

Onde o socialismo buscava o controle totalitário dos processos econômicos da sociedade, através da operação direta dos meios de produção, pelo Estado, o fascismo buscava esse controle indiretamente, subjugando os detentores da titularidade nominal da propriedade privada. Onde o socialismo nacionalizava a propriedade explicitamente, o fascismo o fazia implicitamente, ao exigir que os proprietários usassem a sua propriedade de acordo com o “interesse nacional” – ou seja, como concebido pela autoridade autocrática. (O Estado, no entanto, operava algumas indústrias.) Onde o socialismo abolia todas as relações de mercado abertamente, o fascismo mantinha a aparência de relações de mercado ainda que planejasse todas as atividades econômicas. Onde o socialismo abolia a moeda e os preços, o fascismo controlava o sistema monetário e especificava todos os preços e salários politicamente. E fazendo isso tudo, o fascismo desfigurava o mercado. O empreendedorismo fora abolido. Eram os ministérios estatais, e não os consumidores, que determinavam o que devia ser produzido e sob quais condições.

O fascismo deve ser distinguido do intervencionismo, ou da economia mista. O intervencionismo procura guiar o processo de mercado, não eliminá-lo, como fez o fascismo. Salário mínimo e leis antitruste, ainda que regulem o livre mercado, estão a léguas e léguas de distância dos planos plurianuais do Ministério da Economia.

Sob o fascismo, o Estado, através de cartéis oficiais, controlava todos os aspectos da manufatura, do comércio, das finanças, e da agricultura. Comitês de planejamento definiam as linhas de produtos, os níveis de produção, preços, salários, condições de trabalho, e o tamanho das firmas. Licenciamentos eram onipresentes; nenhuma atividade econômica podia ser realizada sem a permissão do governo. Os níveis de consumo eram ditados pelo Estado, e os rendimentos “excedentes” tinham de ser renunciados na forma de impostos ou “empréstimos”. A consequente oneração dos fabricantes dava vantagens às firmas estrangeiras que pretendiam exportar. Mas, como a política governamental visava a autarquia, ou autossuficiência nacional, o protecionismo se fazia necessário: importações eram barradas ou rigorosamente controladas, permitindo-se o êxito estrangeiro apenas quando fosse o único corredor de acesso àqueles recursos indisponíveis domesticamente. O fascismo era, portanto, incompatível com a paz e a divisão internacional do trabalho – marcos do liberalismo.

O fascismo caracterizava-se pelo corporativismo, no qual a representação política era baseada no comércio e na indústria, e não na geografia. Nisto, o fascismo revelava as suas raízes no sindicalismo, um modelo de socialismo oriundo da esquerda. O governo cartelizava firmas do mesmo ramo industrial, com representantes dos trabalhadores e das gerências servindo nas miríades locais, regionais e comitês nacionais – sujeitos sempre a palavra final do plano econômico do ditador. O corporativismo tinha por finalidade prevenir sublevações desestabilizadoras dentro da nação, tais como locautes e greves. A perda da capacidade de barganhar e de mover-se livremente era o preço de tal “harmonia” forçada.

Para manter o nível de emprego alto e minimizar o descontentamento popular, o governo fascista ocupava-se também de financiar maciçamente projetos de obras públicas, por meio de impostos exorbitantes, endividamento e emissão monetária. Embora muitos desses projetos fossem internos – estradas, edificações, estádios – o maior de todos os projetos era o militarismo, com exércitos poderosos e produção em massa de armas.

O antagonismo dos líderes fascistas ao comunismo tem sido erroneamente interpretado como uma inclinação pelo capitalismo. Na verdade, o anticomunismo dos fascistas era motivado pela crença de que entre os coletivistas da Europa do início do século XX, o comunismo era o seu maior rival na batalha por seguidores. Como no comunismo, sob o fascismo todo cidadão era tido como um empregado fiduciário do Estado totalitário, dominado pelo partido. Consequentemente, era prerrogativa do Estado o uso da força, ou a ameaça de fazê-lo, até mesmo para reprimir a oposição pacífica.

Se um arquiteto formal do fascismo pode ser identificado, ele é Benito Mussolini, o outrora editor marxista que, ascendendo embalado no fervor nacionalista, rompeu com a esquerda, na medida em que a Primeira Guerra Mundial se aproximava, e tornou-se líder da Itália em 1922. Mussolini distinguiu o fascismo do capitalismo liberal na sua autobiografia de 1928:

Os cidadãos no Estado fascista não são mais indivíduos egoístas que têm o direito antissocial de rebelar-se contra qualquer lei da Coletividade. O Estado fascista com a sua concepção corporativa põe os homens bem como as suas possibilidades dentro do trabalho produtivo e interpreta para eles os deveres que devem cumprir. (p. 280)

Antes de enveredar-se pelo imperialismo em 1935, Mussolini foi frequentemente elogiado por americanos e britânicos proeminentes, incluindo Winston Churchill, pelo seu programa econômico.

Da mesma forma, Adolf Hitler, cujo Partido Nacional-Socialista (Nazista) adaptou o fascismo à Alemanha, iniciando em 1933, disse:

O Estado deve reter a supervisão e cada proprietário deve se considerar nomeado pelo Estado. É seu dever não usar sua propriedade contrariamente aos interesses dos outros entre o seu próprio povo. Eis a questão crucial. O Terceiro Reich há sempre de manter o seu direito de controlar os detentores de propriedade. (Barkai 1990, pp. 26-27)

Ambos os países exibiam elaborados esquemas de planejamento para as suas economias, a fim de realizar os objetivos do Estado. O Estado corporativo de Mussolini “considerava a iniciativa privada no setor produtivo o mais efetivo instrumento para proteger os interesses nacionais” (Basch 1937, p. 97). Mas o significado de “iniciativa” diferia significativamente do seu significado nas economias de mercado. Os trabalhadores e os gerentes eram organizados em vinte e duas “corporações” industriais e comerciais, cada uma com membros do Partido Fascista na qualidade de participantes sêniores. As corporações eram consolidadas em um Conselho Nacional das Corporações; todavia, as decisões reais eram tomadas pelas agências estatais tais como o Instituto para a Reconstrução Industrial, que detinha participações em empresas industriais, agrárias e imobiliárias, e o Instituto Mobiliário, que controlava o crédito nacional.

O regime de Hitler eliminou as pequenas companhias e tornou a filiação a cartéis obrigatória.1 A Câmara Econômica do Reich estava no topo de uma complicada burocracia, abrangendo aproximadamente duas centenas de organizações, organizadas conjuntamente nos segmentos da indústria, comércio e ofícios, bem como em diversos conselhos nacionais. A Frente Trabalhista, uma extensão do Partido Nazista, lidava com todos os assuntos trabalhistas, incluindo salários e alocação de trabalhadores para serviços específicos. O recrutamento de trabalhadores foi inaugurado em 1938. Dois anos antes, Hitler tinha imposto um plano de quatro anos no sentido de adequar a economia nacional para o cenário de guerra. Na Europa dessa época, Espanha, Portugal e Grécia também instituíram economias fascistas.

Nos Estados Unidos, a partir de 1933, a constelação de intervenções governamentais conhecida como the New Deal (português: “o Novo Acordo” ou “o Novo Trato”) apresentava características típicas de Estado corporativo. A Lei de Recuperação da Indústria Nacional (inglês: National Industrial Recovery Act) criava autarquias públicas (inglês: code authorities) e códigos de boas práticas que governavam todos os aspectos da manufatura e do comércio. A Lei Nacional de Relações Trabalhistas (inglês: National Labor Relations Act) tornou o governo federal o árbitro final nas questões trabalhistas. A Lei do Ajuste Agrícola (inglês: Agricultural Adjustment Act) introduziu o planejamento central na atividade agrícola. O objetivo era reduzir a concorrência e a produção de modo a segurar os preços e manter os rendimentos de certos grupos ameaçados de falência devido a Grande Depressão.

É tema de controvérsias se o New Deal do presidente Franklin Roosevelt foi ou não diretamente influenciado pelas políticas econômicas fascistas. Mussolini elogiou o New Deal como “audaciosamente (…) intervencionista no campo da economia”, e Roosevelt felicitou Mussolini pelo seu “objetivo honesto de reerguer a Itália” e reconheceu ter mantido “contato razoavelmente próximo com aquele admirável cavalheiro italiano”. Além disso, é sabido que Hugh Johnson, chefe da Administração da Recuperação Nacional (inglês: National Recovery Administration), carregava consigo uma cópia do livro de Raffaello Viglione, pró-Mussolini, The Corporate State (português: O Estado Corporativo), e presenteara com uma cópia o Secretário do Trabalho, Frances Perkins, mostrando-se, ao sair da vida pública, tributário do ditador italiano.

Sobre o autor

Sheldon Richman é o editor de The Freeman: Ideas on Liberty da Foundation For Economic Education em Irvingtonon-Hudson, N.Y.

Leitura adicional

Barkai, Avraham. Nazi Economics: Ideology, Theory, and Policy. Trans. Ruth Hadass-Vashitz. Oxford: Berg Publishers Ltd., 1990.

Basch, Ernst. The Fascist: His State and His Mind. New York: Morrow, 1937.

Diggins, John P. Mussolini and Fascism: The View from America.Princeton: Princeton University Press, 1972.

Flynn, John T. As We Go Marching. 1944. Reprint. New York: Free Life Editions, 1973.

Flynn, John T. The Roosevelt Myth. New York: Devin-Adair, 1948.

Laqueur, Walter, ed. Fascism: A Reader’s Guide. Berkeley: University of California Press, 1976.

Mises, Ludwig von. Omnipotent Government. New Rochelle, N.Y.: Arlington House, 1944.

Mussolini, Benito. Fascism: Doctrine and Institutions. Firenze: Vallecchi, 1935.

Mussolini, Benito. My Autobiography. New York: Scribner’s, 1928.

Pitigliani, Fauto. The Italian Corporative State. New York: Macmillan, 1934.

Powell, Jim. FDR’s Folly: How Roosevelt and His New Deal Prolonged the Great Depression. New York: Crown Forum, 2003.

Shirer, William L. The Rise and Fall of the Third Reich. New York: Simon and Schuster, 1960.

Twight, Charlotte. America’s Emerging Fascist Economy. New Rochelle, N.Y.: Arlington House, 1975.

Notas de rodapé

1. “Leis decretadas em outubro de 1937 simplesmente dissolviam todas as companhias com um capital abaixo de $40.000 e proibiam o estabelecimento de novas com capital inferior a $20.000” (Shirer 1959, p. 262).


Original em inglês disponível no endereço:
http://www.econlib.org/library/Enc/Fascism.html