Antony C. Sutton, Wall Street, Nazismo & Comunismo

Antony C. Sutton é entrevistado e fala sobre Adolf Hitler, o movimento bolchevique, quem financiou o comunismo, transferência de fundos, transferência de tecnologias, Henry Ford, David Rockfeller, IG Farben, Standard Oil, a Comissão Trilateral, quem controla a mídia nos EUA, corporações, banqueiros internacionais, quem é o governo invisível e muito mais.

Esquerdistas ruborizam-se enfurecidos quando lembrados das raízes socialistas do Nazismo

Daniel Hannan

nazi_posters_0
Você não pode acusar o NSDAP de ter diminuído o “socialista” que aparecia em seu nome, dizer que era um mero detalhezinho

Em 16 de junho de 1941, enquanto Hitler preparava suas forças para a Operação Barbarossa, Joseph Goebbels aguardava com expectativa a nova ordem que os nazistas imporiam a uma Rússia conquistada. Não haveria volta, ele escreveu, para capitalistas nem para padres nem para Tsares. Longe disso, no lugar do vil bolchevismo judeu, a Wehrmacht1 entregaria “der echte Sozialismus”: o socialismo real.

Goebbels nunca duvidou que fosse um socialista. Ele entendia o Nazismo como uma forma melhor e mais plausível de socialismo do que o difundido por Lênin. Ao invés de espalhar-se por entre diferentes nações, ele deveria operar dentro da unidade do Volk2.

A vitória cultural da Esquerda contemporânea é tal que recontar esse fato, tão somente, rende uma boa gritaria. Mas, na época, poucos o achariam controverso. Como George Watson o coloca em The Lost Literature of Socialism3:

É claro agora, para além de qualquer dúvida razoável, que Hitler e seus companheiros se julgavam socialistas, e que outros, incluindo socialistas democráticos, assim também pensavam.

O indicativo está no nome. Gerações consecutivas de esquerdistas têm tentado explicar a para lá de embaraçosa nomenclatura do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães como uma cínica jogada de marketing político ou mesmo como uma coincidência embaraçante. Na verdade, o nome significa exatamente o que diz.

Hitler disse, segundo Hermann Rauschning, um prussiano que atuou brevemente para os nazistas antes de rejeitá-los e fugir do país, que admirara muito do pensamento dos revolucionários que conhecera na juventude; mas sentia que eram apenas homens de discurso, não homens de ação: “Eu tenho colocado em prática o que esses mascates e burocratas timidamente começaram”, vangloriou-se, acrescentando que “todo o Nacional-Socialismo” era “baseado em Marx”.

O erro de Marx, acreditava Hitler, seria a promoção da luta de classes em vez da unidade nacional — jogar operários contra industriais em vez de uni-los numa ordem corporativista. Seu objetivo, como contado a seu conselheiro econômico, Otto Wagener, era “converter o Volk alemão ao socialismo sem exterminar os antigos individualistas” — pois considerava que os banqueiros e proprietários de indústrias podiam, conforme acreditava, serem úteis ao socialismo gerando receitas para o Estado. “O que o marxismo, leninismo e stalinismo falharam em realizar”, disse a Wagener, “estaremos em condições de atingir.”

Leitores esquerdistas talvez estejam, bem agora, coléricos de fúria. Sempre que toco nesse assunto, isto evoca uma reação quase em cadeia de pessoas que se julgam progressistas e veem o anti-fascismo como parte da sua ideologia. Bem, colegas, talvez saibam agora como nós, conservadores, nos sentimos quando vocês promiscuamente associam o Nazismo com “a Direita”.

Para ser absolutamente claro, eu não creio que os esquerdistas contemporâneos tenham inclinações nazistas subconscientes, ou que a repugnância a Hitler que demonstram seja, de alguma forma, fingimento. Este não é o meu argumento. O que estou tentando fazer, ao segurar-lhes o espelho, é sustentar que é igualmente falsa a idéia de que há um continuum ideológico entre livre-mercadistas e fascistas.

A idéia de que o Nazismo é uma forma mais extrema de conservadorismo tem sido insinuada no meio da cultura popular. Você escuta isto não apenas quando estudantes incoerentes gritam “fascistas” aos Tories4, mas também quando os “especialistas” rotulam os partidos anti-capitalistas revolucionários, tais como o Partido Nacional Britânico e a Aurora Dourada (grego), como sendo de “extrema-direita”.

E em que se baseia esta conexão? Passa dos limites do senso pueril no qual Esquerda significa compaixão e Direita significa sordidez e fascistas são sórdidos. Colocando as coisas assim, a noção soa idiota, mas pense nos grupos ao redor do mundo aos quais a BBC, por exemplo, chama de “extrema-direita”: o Talibã, que quer a propriedade comunitária dos bens; os revolucionários iranianos, que aboliram a monarquia, tomaram indústrias e destruíram a classe-média; Vladimir Zhirinovsky, que tem saudades do stalinismo. O característico “nazistas eram de extrema-direita” é um sintoma da noção mais ampla de que a “Direita” é um sinônimo de “vilania”.

Um dos meus eleitores, certa vez, queixou-se à Beeb5 a respeito de uma reportagem sobre a repressão a povos indígenas no México, na qual o governo [mexicano] fora rotulado [pela BBC] como de Direita. O partido governista, ele assinalava, era um membro da Internacional Socialista e, novamente, o mote vinha revelado no seu nome: Partido Revolucionário Institucional. A réplica da BBC foi simplesmente hilária. Sim, entendia que o partido era socialista, “mas o que o nosso correspondente estava tentando evidenciar é que era [um partido] autoritário”.

Na verdade, o autoritarismo era a característica comum dos socialistas de ambas as variedades, nacional ou leninista, que sem pestanejar colocavam um ao outro em campos de prisioneiros ou, antes, em pelotões de fuzilamento. Cada facção odiava a outra como se fosse herética, mas ambas desprezavam os individualistas livre-mercadistas como se não tivessem salvação. A batalha que travaram entre si foi a mais feroz em tudo, como assinalado por Hayek em 1944, pois era uma batalha entre irmãos.

O autoritarismo — ou, para dar-lhe um nome um pouco menos carregado, a crença de que a compulsão do Estado é justificada quando busca um objetivo mais elevado, tal como progresso científico ou maior igualdade — foi tradicionalmente uma característica dos social-democratas bem como dos revolucionários.

O cronista Jonah Goldberg escreveu extensamente sobre o fenômeno em sua obra-prima, Liberal Fascism6. Muitas pessoas sentem-se ofendidas com o seu título, evidentemente sem ter lido o livro uma vez que, logo nas primeiras páginas, Jonah revela não ser sua a expressão. Ele cita o irrepreensível progressista H.G. Wells que, em 1932, disse aos jovens liberais para tornarem-se “fascistas liberais” e “nazistas iluminados”.

Naquele tempo, os mais proeminentes intelectuais de esquerda, incluindo Wells, Jack London, Havelock Ellis e os Webbs, tendiam a ser favoráveis a eugenia, convencidos de que apenas obstáculos religiosos seguravam o desenvolvimento de espécies mais saudáveis. A maneira sem remorso com a qual estabeleciam as consequências, tal como nas palavras de Hitler, tem sido amplamente eliminadas do debate. Eis aqui, por exemplo, as palavras de George Bernard Shaw em 1933:

O extermínio deve ser colocado sobre uma base científica, se for para ser realizado humanamente e apologeticamente bem como com o devido cuidado… Se desejamos um certo tipo de civilização e cultura, devemos exterminar o tipo de gente que não se encaixa nela.

Eugenia, obviamente, é algo fartamente eivado de racismo. O próprio Engels escreveu algo sobre o que chamou de “lixo racial” — os grupos que seriam necessariamente suplantados quando o socialismo científico passasse a tomar forma. Tempere isto com uma pitada de anti-capitalismo e você obtém, frequentemente, antissemitismo de Esquerda — outra coisa que puxamos da memória, mas que uma vez mais deixamos de dizer. “Como pode você, enquanto socialista, não ser antissemita?” — perguntou Hitler, em 1920, aos membros do seu partido.

São, nos dias de hoje, as críticas esquerdistas a Israel ocultamente antissemitas? Não, não na vasta maioria dos casos. Estão os socialistas modernos ansiosos por dentro para colocarem os céticos do aquecimento global em campos de prisioneiros? Nem. Querem os keynesianos o aparato todo do corporativismo, expresso por Mussolini como “tudo no Estado, nada fora do Estado”? Mais uma vez, não. Há idiotas que depreciam qualquer causa, é claro, mas a maioria das pessoas na Esquerda são sinceras nos seus compromissos assumidos com os direitos humanos, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo.

Minha animosidade com muitos (não todos) esquerdistas é algo mais simples. Ao se recusarem a retribuir a gentileza, ao assumirem uma superioridade moral, tornam o diálogo político praticamente impossível. Usar a alcunha “Direita” querendo que isso signifique “algo desagradável” é um pequeno mas importante exemplo.

Na próxima vez que ouvir esquerdistas usarem a palavra fascista como um insulto genérico, explique educadamente a diferença entre o que ele gostaria que o NSDAP7 tivesse sido e o que ele realmente foi.

 

tegenkapitalisme
O Partido Nazista Holandês era igualmente explícito: “Com a Alemanha, Contra o Capitalismo”

 

oursocialism
Uma outra imagem nazista holandesa: “Nosso Socialismo, Seu Futuro”

 

nazi_arbeiter_poster_socialist
O trabalhador Nacional-Socialista alemão se levanta contra o capitalismo

 

Notas de rodapé

1. Força de Defesa (ou, se preferir, Forças Armadas) do Reich

2. Povo (no sentido “étnico”)

3. A Literatura Esquecida do Socialismo

4. Conservadores

5. BBC, British Broadcasting Corporation

6. Fascismo de Esquerda

7. Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães)

Original em inglês disponível no endereço: http://blogs.telegraph.co.uk/news/danielhannan/100260720/whenever-you-mention-fascisms-socialist-roots-left-wingers-become-incandescent-why/ [link quebrado]

P.S. O original ainda pode ser encontrado na web no endereço: http://blackrepublican.blogspot.com.br/2015/05/leftists-become-incandescent-when.html

A supremacia da Esquerda é tal que quase ninguém fala sobre as origens socialistas do fascismo

Daniel Hannan

poster-national-socialism
O constrangimento está no nome. Lê-se no panfleto: “Nacional-Socialismo: a vontade organizada da Nação”.

“Sou um socialista”, disse Hitler a Otto Strasser em 1930, “mas um tipo de socialista bem diferente do seu amigo rico, o Conde Reventlow”.

Ninguém naquele tempo comentaria que a afirmação acima é controversa. Os nazistas dificilmente seriam mais claros sobre o seu socialismo do que se descreverem com a mesma terminologia que usamos no nosso SWP1: Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Quase todo mundo aceitava, naquele tempo, que o fascismo tinha emergido da Esquerda revolucionária. Os seus militantes marchavam nas Festas de Maio sob bandeiras vermelhas. Os seus líderes sinalizavam na direção de coletivismo, controle estatal da indústria, altas tarifas, conselhos de trabalhadores. Na Europa toda, fascistas estavam convencidos de que, como dito por Hitler a um entusiasmado Mussolini, em 1934, “o capitalismo havia chegado ao fim da linha”.

Um dos feitos mais extraordinários da Esquerda contemporânea é a criação de um ambiente cultural onde mencionar esses fatos é, simplesmente, algo chocante. A História foi reinterpretada, e toma-se como axiomático que fascismo deve ser considerado de Direita, sendo a lógica aparente de que a Esquerda significa compaixão e a Direita significa sordidez e fascistas são sórdidos. Você espera esse tipo de análise da galera do Twitter; não deve esperá-lo dos comentaristas do mainstream.

Quando foi a última vez que você ouviu uma referência ao BNP2 na BBC sem o epíteto ‘extrema-direita’? A terminologia é deliberadamente tendenciosa. Não faz com que pensem um pouco menos do BNP; mas faz com que pensem menos do mainstream da Direita, porque implica que o manifesto do BNP é de alguma forma um tipo de conservadorismo mais intenso.

Manter essa crença, contudo, depende de você fechar os seus olhos para o grosso do que o BNP representa.

Como o New Statesman o coloca:

Numa breve passada de olhos pelos escritos do manifesto do BNP revelam-se propostas que apontam para o seguinte: grandes aumentos nas pensões estatais; mais dinheiro para o NHS3; aprimoramento da proteção ao trabalhador; estatização de indústrias chaves. Sob Griffin, a extrema-direita dos dias modernos tem se posicionado a esquerda do Partido Trabalhista4.

Realmente. O etno-nacionalismo do partido é simplesmente mais uma forma de protecionismo. Assim como não é favorável a livre circulação de mercadorias, não é favorável a livre circulação de pessoas. Não é de se admirar que recentemente o BNP tenha se propagandeado como ‘O Partido Trabalhista no qual os seus pais votavam’.

Eu estou querendo dizer que o BNP é simplesmente um outro tipo de Partido Trabalhista? Não. Isso seria repetir o erro do sujeito do Twitter, só que ao contrário. Há obviamente diferenças imensas entre o que Nick Griffin representa e o que Ed Miliband representa. Sim, o BNP tem algumas políticas em comum com o Partido Trabalhista, assim como tem algumas políticas em comum com o Partido Verde, com os Liberais-Democratas e com os Conservadores. Coincidência de políticas não estabelece consanguinidade de doutrina.

Eu apenas espero que os Esquerdistas que leram até aqui saibam como os conservadores se sentem quando descrevem o fascismo como se fosse simplesmente um ponto no extremo do espectro político que se moveu a partir do conservadorismo. Sempre que alguém aponta as origens socialistas do fascismo, ouve-se uma gritaria de indignação. Curiosamente, os que gritam mais alto são frequentemente os primeiros a afirmar a existência de alguma ligação ideológica entre o fascismo e o conservadorismo. Talvez ambas as partes devessem se dar uma trégua.

Notas de rodapé

  1. Sigla de Socialist Workers Party (Partido Socialista dos Trabalhadores).
  2. Sigla de British National Party (Partido Nacional Britânico).
  3. Sigla de National Health Service (Serviço Nacional de Saúde).
  4. Labour Party (Partido Trabalhista).

Original em inglês disponível no endereço:
http://blogs.telegraph.co.uk/news/danielhannan/100203076/so-total-is-the-lefts-cultural-ascendancy-that-we-dare-not-mention-the-socialist-roots-of-fascism/ [link quebrado]

P.S. O original ainda pode ser encontrado na web no endereço: https://www.mises.ca/so-total-is-the-lefts-cultural-ascendancy-that-no-one-likes-to-mention-the-socialist-roots-of-fascism/

Fascismo

Sheldon Richman

Enquanto sistema econômico, o fascismo é socialismo com um verniz capitalista. A palavra deriva de fasces, o símbolo romano do coletivismo e do poder: um feixe de varas amarradas junto a um machado sobressalente. Nos seus dias (as décadas de 1920 e 1930), o fascismo era visto como um meio-termo entre o capitalismo liberal propenso a altos-e-baixos, com o seu alegado conflito de classes, a sua competição degradante, e o seu egoísmo voltado ao lucro, e o marxismo revolucionário, com a sua perseguição violenta, e socialmente desagregadora, a burguesia. O fascismo substituiu a peculiaridade “sangue e solo” do nacionalismo e do radicalismo pelo internacionalismo comum ao liberalismo clássico e ao marxismo.

Onde o socialismo buscava o controle totalitário dos processos econômicos da sociedade, através da operação direta dos meios de produção, pelo Estado, o fascismo buscava esse controle indiretamente, subjugando os detentores da titularidade nominal da propriedade privada. Onde o socialismo nacionalizava a propriedade explicitamente, o fascismo o fazia implicitamente, ao exigir que os proprietários usassem a sua propriedade de acordo com o “interesse nacional” – ou seja, como concebido pela autoridade autocrática. (O Estado, no entanto, operava algumas indústrias.) Onde o socialismo abolia todas as relações de mercado abertamente, o fascismo mantinha a aparência de relações de mercado ainda que planejasse todas as atividades econômicas. Onde o socialismo abolia a moeda e os preços, o fascismo controlava o sistema monetário e especificava todos os preços e salários politicamente. E fazendo isso tudo, o fascismo desfigurava o mercado. O empreendedorismo fora abolido. Eram os ministérios estatais, e não os consumidores, que determinavam o que devia ser produzido e sob quais condições.

O fascismo deve ser distinguido do intervencionismo, ou da economia mista. O intervencionismo procura guiar o processo de mercado, não eliminá-lo, como fez o fascismo. Salário mínimo e leis antitruste, ainda que regulem o livre mercado, estão a léguas e léguas de distância dos planos plurianuais do Ministério da Economia.

Sob o fascismo, o Estado, através de cartéis oficiais, controlava todos os aspectos da manufatura, do comércio, das finanças, e da agricultura. Comitês de planejamento definiam as linhas de produtos, os níveis de produção, preços, salários, condições de trabalho, e o tamanho das firmas. Licenciamentos eram onipresentes; nenhuma atividade econômica podia ser realizada sem a permissão do governo. Os níveis de consumo eram ditados pelo Estado, e os rendimentos “excedentes” tinham de ser renunciados na forma de impostos ou “empréstimos”. A consequente oneração dos fabricantes dava vantagens às firmas estrangeiras que pretendiam exportar. Mas, como a política governamental visava a autarquia, ou autossuficiência nacional, o protecionismo se fazia necessário: importações eram barradas ou rigorosamente controladas, permitindo-se o êxito estrangeiro apenas quando fosse o único corredor de acesso àqueles recursos indisponíveis domesticamente. O fascismo era, portanto, incompatível com a paz e a divisão internacional do trabalho – marcos do liberalismo.

O fascismo caracterizava-se pelo corporativismo, no qual a representação política era baseada no comércio e na indústria, e não na geografia. Nisto, o fascismo revelava as suas raízes no sindicalismo, um modelo de socialismo oriundo da esquerda. O governo cartelizava firmas do mesmo ramo industrial, com representantes dos trabalhadores e das gerências servindo nas miríades locais, regionais e comitês nacionais – sujeitos sempre a palavra final do plano econômico do ditador. O corporativismo tinha por finalidade prevenir sublevações desestabilizadoras dentro da nação, tais como locautes e greves. A perda da capacidade de barganhar e de mover-se livremente era o preço de tal “harmonia” forçada.

Para manter o nível de emprego alto e minimizar o descontentamento popular, o governo fascista ocupava-se também de financiar maciçamente projetos de obras públicas, por meio de impostos exorbitantes, endividamento e emissão monetária. Embora muitos desses projetos fossem internos – estradas, edificações, estádios – o maior de todos os projetos era o militarismo, com exércitos poderosos e produção em massa de armas.

O antagonismo dos líderes fascistas ao comunismo tem sido erroneamente interpretado como uma inclinação pelo capitalismo. Na verdade, o anticomunismo dos fascistas era motivado pela crença de que entre os coletivistas da Europa do início do século XX, o comunismo era o seu maior rival na batalha por seguidores. Como no comunismo, sob o fascismo todo cidadão era tido como um empregado fiduciário do Estado totalitário, dominado pelo partido. Consequentemente, era prerrogativa do Estado o uso da força, ou a ameaça de fazê-lo, até mesmo para reprimir a oposição pacífica.

Se um arquiteto formal do fascismo pode ser identificado, ele é Benito Mussolini, o outrora editor marxista que, ascendendo embalado no fervor nacionalista, rompeu com a esquerda, na medida em que a Primeira Guerra Mundial se aproximava, e tornou-se líder da Itália em 1922. Mussolini distinguiu o fascismo do capitalismo liberal na sua autobiografia de 1928:

Os cidadãos no Estado fascista não são mais indivíduos egoístas que têm o direito antissocial de rebelar-se contra qualquer lei da Coletividade. O Estado fascista com a sua concepção corporativa põe os homens bem como as suas possibilidades dentro do trabalho produtivo e interpreta para eles os deveres que devem cumprir. (p. 280)

Antes de enveredar-se pelo imperialismo em 1935, Mussolini foi frequentemente elogiado por americanos e britânicos proeminentes, incluindo Winston Churchill, pelo seu programa econômico.

Da mesma forma, Adolf Hitler, cujo Partido Nacional Socialista (Nazista) adaptou o fascismo à Alemanha, iniciando em 1933, disse:

O Estado deve reter a supervisão e cada proprietário deve se considerar nomeado pelo Estado. É seu dever não usar sua propriedade contrariamente aos interesses dos outros entre o seu próprio povo. Eis a questão crucial. O Terceiro Reich há sempre de manter o seu direito de controlar os detentores de propriedade. (Barkai 1990, pp. 26-27)

Ambos os países exibiam elaborados esquemas de planejamento para as suas economias, a fim de realizar os objetivos do Estado. O Estado corporativo de Mussolini “considerava a iniciativa privada no setor produtivo o mais efetivo instrumento para proteger os interesses nacionais” (Basch 1937, p. 97). Mas o significado de “iniciativa” diferia significativamente do seu significado nas economias de mercado. Os trabalhadores e os gerentes eram organizados em vinte e duas “corporações” industriais e comerciais, cada uma com membros do Partido Fascista na qualidade de participantes sêniores. As corporações eram consolidadas em um Conselho Nacional das Corporações; todavia, as decisões reais eram tomadas pelas agências estatais tais como o Instituto para a Reconstrução Industrial, que detinha participações em empresas industriais, agrárias e imobiliárias, e o Instituto Mobiliário, que controlava o crédito nacional.

O regime de Hitler eliminou as pequenas companhias e tornou a filiação a cartéis obrigatória.1 A Câmara Econômica do Reich estava no topo de uma complicada burocracia, abrangendo aproximadamente duas centenas de organizações, organizadas conjuntamente nos segmentos da indústria, comércio e ofícios, bem como em diversos conselhos nacionais. A Frente Trabalhista, uma extensão do Partido Nazista, lidava com todos os assuntos trabalhistas, incluindo salários e alocação de trabalhadores para serviços específicos. O recrutamento de trabalhadores foi inaugurado em 1938. Dois anos antes, Hitler tinha imposto um plano de quatro anos no sentido de adequar a economia nacional para o cenário de guerra. Na Europa dessa época, Espanha, Portugal e Grécia também instituíram economias fascistas.

Nos Estados Unidos, a partir de 1933, a constelação de intervenções governamentais conhecida como the New Deal (português: “o Novo Acordo” ou “o Novo Trato”) apresentava características típicas de Estado corporativo. A Lei de Recuperação da Indústria Nacional (inglês: National Industrial Recovery Act) criava autarquias públicas (inglês: code authorities) e códigos de boas práticas que governavam todos os aspectos da manufatura e do comércio. A Lei Nacional de Relações Trabalhistas (inglês: National Labor Relations Act) tornou o governo federal o árbitro final nas questões trabalhistas. A Lei do Ajuste Agrícola (inglês: Agricultural Adjustment Act) introduziu o planejamento central na atividade agrícola. O objetivo era reduzir a concorrência e a produção de modo a segurar os preços e manter os rendimentos de certos grupos ameaçados de falência devido a Grande Depressão.

É tema de controvérsias se o New Deal do presidente Franklin Roosevelt foi ou não diretamente influenciado pelas políticas econômicas fascistas. Mussolini elogiou o New Deal como “audaciosamente . . . intervencionista no campo da economia”, e Roosevelt felicitou Mussolini pelo seu “objetivo honesto de reerguer a Itália” e reconheceu ter mantido “contato razoavelmente próximo com aquele admirável cavalheiro italiano”. Além disso, é sabido que Hugh Johnson, chefe da Administração da Recuperação Nacional (inglês: National Recovery Administration), carregava consigo uma cópia do livro de Raffaello Viglione, pró-Mussolini, The Corporate State (português: O Estado Corporativo), e presenteara com uma cópia o Secretário do Trabalho, Frances Perkins, mostrando-se, ao sair da vida pública, tributário do ditador italiano.

Sobre o autor

Sheldon Richman é o editor de The Freeman: Ideas on Liberty da Foundation For Economic Education em Irvingtonon-Hudson, N.Y.

Leitura adicional

Barkai, Avraham. Nazi Economics: Ideology, Theory, and Policy. Trans. Ruth Hadass-Vashitz. Oxford: Berg Publishers Ltd., 1990.

Basch, Ernst. The Fascist: His State and His Mind. New York: Morrow, 1937.

Diggins, John P. Mussolini and Fascism: The View from America.Princeton: Princeton University Press, 1972.

Flynn, John T. As We Go Marching. 1944. Reprint. New York: Free Life Editions, 1973.

Flynn, John T. The Roosevelt Myth. New York: Devin-Adair, 1948.

Laqueur, Walter, ed. Fascism: A Reader’s Guide. Berkeley: University of California Press, 1976.

Mises, Ludwig von. Omnipotent Government. New Rochelle, N.Y.: Arlington House, 1944.

Mussolini, Benito. Fascism: Doctrine and Institutions. Firenze: Vallecchi, 1935.

Mussolini, Benito. My Autobiography. New York: Scribner’s, 1928.

Pitigliani, Fauto. The Italian Corporative State. New York: Macmillan, 1934.

Powell, Jim. FDR’s Folly: How Roosevelt and His New Deal Prolonged the Great Depression. New York: Crown Forum, 2003.

Shirer, William L. The Rise and Fall of the Third Reich. New York: Simon and Schuster, 1960.

Twight, Charlotte. America’s Emerging Fascist Economy. New Rochelle, N.Y.: Arlington House, 1975.

Notas de rodapé

1. “Leis decretadas em outubro de 1937 simplesmente dissolviam todas as companhias com um capital abaixo de $40.000 e proibiam o estabelecimento de novas com capital inferior a $20.000” (Shirer 1959, p. 262).

Original em inglês disponível no endereço:
http://www.econlib.org/library/Enc/Fascism.html